Por que imortalizar as memórias de alguém?

A curiosidade humana acerca de seu passado e suas origens é um fato inerente à nossa natureza. Desde que desenvolvemos a habilidade de comunicar-nos uns com os outros, histórias vêm sendo contadas ao longo de incontáveis gerações. Mas as reuniões à beira do fogo foram gradualmente substituídas por formas de entretenimento menos gregárias, de forma que as pessoas já não interagem como há tempos atrás.

E assim, na pressa da vida cotidiana, com o decorrer dos anos, vemos nossos pais, avós, bisavós e outros entes queridos envelhecerem e partirem sem que saibamos muito sobre sua história, seu passado e suas memórias, sejam elas ternas ou dolorosas, das mais recentes às mais remotas, ocultas nos labirintos do tempo.

Registrar as memórias de alguém é como driblar o tempo. Muitos de nós nunca tivemos a oportunidade de saber mais sobre a vida de pessoas importantes e queridas, imprescindíveis à nossa própria existência, seja pela vida apressada do cotidiano ou pelos anos que nos separam. Quem não gostaria de ter um relato das memórias e experiências de seus antepassados contadas por eles próprios?

Imagine ter em mãos um registro detalhado das memórias de um bisavô, a quem os anos não lhe deram sequer a chance de conhecer? Ou então de uma avó querida, que o tempo levou antes que você tivesse a oportunidade – ou maturidade – de simplesmente sentar-se com ela e conversar sobre as dificuldades e alegrias que a vida lhe proporcionou.

Os anos passam, e quando paramos para analisar, muitas vezes já é tarde demais para fazermos algo para resgatar esse passado. É impossível estimar o valor da emoção ao rever aquele rosto, ouvir novamente aquela voz, revisitar suas histórias…

Quando uma pessoa morre, é como uma biblioteca inteira se incendiasse, levando consigo uma coleção repleta de histórias e memórias únicas, que jamais serão passadas aos que virão.

Uma constatação importante é fato de esta geração estar em franco processo de extinção. Dentro de alguns anos, estas pessoas, que nasceram em um mundo ainda muito similar ao de seus antepassados, dominantemente rural, simplório e arcaico, sem acesso a luz elétrica e a outros adventos modernos, já não existirão. E o que restará delas, senão nossas lembranças?

Quando perguntado durante uma entrevista se tinha algum arrependimento, o ator, diretor e produtor de cinema Robert De Niro respondeu:

“Quando um dos nossos pais morre, é o fim. Não há como voltar atrás. Eu sempre quis registrar a história da minha família com a minha mãe. E ela sempre foi interessada nesta idéia. Eu queria que algumas pessoas com quem eu havia trabalhado conversassem com ela, mas ela se sentia um pouco apreensiva quanto a isso. Mas eu sei que ela teria aceito. Meu pai também teria aceito, mas eu não insisti o suficiente, e acabei por deixar passar. Este é um arrependimento que eu tenho. Eu não sei tanto sobre a história da família quando eu poderia, e agora não posso passá-lo para meus filhos.”

Um outro fator interessante deste processo é o efeito terapêutico – facilmente observável – destas sessões nas vidas das pessoas ao narrar suas memórias e lembranças.

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